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APMP repudia matéria da revista Carta Capital sob o título "Mulheres que envergonham as mulheres"

Leia Nota Pública do Grupo Interinstitucional de Gênero do Judiciário e do Ministério Público no Paraná

21/11/2019

ASSOCIAÇÃO PARANAENSE DO MINISTÉRIO PÚBLICO - APMP, entidade de classe que congrega promotores (as) e procuradores (as) de Justiça do Estado do Paraná, vem a público manifestar repúdio à matéria veiculada na revista Carta Capital sob o título "Mulheres que envergonham as mulheres", na edição do dia 20 de novembro de 2019, em consonância à Nota Pública redigida pelo Grupo Interinstitucional de Estudos de Gênero do Judiciário e do Ministério Público do Estado no Paraná, da qual é participante.

A busca das mulheres pela igualdade de gênero tem superado obstáculos há muitas décadas e é conquistada diariamente, mesmo em uma triste realidade nacional de inúmeros casos de feminicídio e violência doméstica e do constante ataque às mulheres em cargos de poder.

Desta maneira, ataques, como os referidos na matéria, de cunho sexista, pejorativos e misóginos não podem e não devem ser tolerados.

Leia abaixo a NOTA PÚBLICA das integrantes do Grupo Interinstitucional de Estudos de Gênero do Judiciário e do Ministério Público do Estado no Paraná:

NOTA PÚBLICA

“Mulheres que envergonham mulheres” ou melhor, o preconceito sexista que envergonha mulheres e homens

Na Idade Média, mulheres que por alguma razão se destacavam, tinham voz ou agiam diferente das demais eram consideradas bruxas, execradas publicamente, humilhadas e mortas em fogueiras. Tempos em que o poder era exercido exclusivamente pelo homem e o feminino era uma condição inferior.

Ainda nos tempos atuais, mulheres solteiras, divorciadas, profissionais, homossexuais ou que simplesmente se consideram livres de rótulos vinculados a estado civil, opção ou orientação sexual são vítimas de preconceito, pois não se admite a felicidade da mulher ou o exercício de uma função pública sem a figura de um homem/pai/protetor/provedor/orientador. É a cultura, verdadeira ideologia de gênero que valoriza desigualmente mulheres e homens.

Mulheres sofrem com a ditadura da beleza, não possuem o direito de envelhecer, ou melhor, devem esconder os sinais do tempo, não devem ser nem muito gordas nem muito magras, sempre bem maquiadas e vestidas de acordo com os padrões de beleza impostos, dispostas e prestativas, prontas para todas as multifunções privadas e públicas para as quais são aceitas, desde que coadjuvantes e nunca nos papeis principais.

A luta das mulheres para conseguir representatividade na política, a igualdade de direitos e de remuneração por seu trabalho, assim como direitos sociais relativos à sua atuação multitarefas e proteção contra todas as formas de dominação e violência parece nunca ter fim. O movimento feminista incomoda, o exercício do poder pela mulher é desvalorizado, a busca pela representatividade da mulher nas instituições ameaça o privilégio da condição masculina, e as mulheres que exercem funções de poder são ridicularizadas por sua condição feminina.

Essa situação se revela no artigo assinado “Mulheres que envergonham mulheres” da revista de circulação nacional Carta Capital dessa semana (datada de 20/11/2019). O título dá a entender que o texto que segue tratará de histórias de mulheres que, supostamente e na opinião do comentarista, no desempenho de suas funções públicas, teriam posicionamentos de desonra às demais mulheres. No entanto, não é bem disso que o artigo se refere.

As mulheres escolhidas e nomeadas foram qualificadas de forma exemplar: uma delas, a mais poderosa, descrita como bruxa e feia (“criatura do mal, invejosa, vingativa, mentirosa, dissimulada”); outra,  considerada  “travadona”, acrescentando num trocadilho com seu nome, que se fosse lésbica, seria mais feliz; uma terceira é identificada como  “xerife de bordel curitibano”; e ainda aquela que, frustrada por não perceber que   “...o guapo mancebo (da goiabeira)  era um presente dos céus para sossegar a sofreguidão de seus países baixos”, permanece infeliz à procura de sua cara metade nas redes virtuais de relacionamento pessoal. O desfile de comentários sexistas prossegue, distribuindo entre as mulheres escolhidas os adjetivos de “ressentida”, “chatinha”, “estressadinha”, acrescidos de comentários sobre trajes e “looks”, além de referências a idade, formato de corpos e vida pessoal, num desfile gratuito de qualificativos grotescos e jocosos, que visam menosprezar e ridicularizar a cada uma das eleitas, o que ofende o gênero feminino e a todas nós, mulheres brasileiras.

A liberdade de opção e orientação sexual é direito da mulher, seja celibatária ou casada, homossexual, solteira ou trabalhadora de bordel (para utilizar a expressão do autor). A aceitação do próprio corpo, a aparência física, o modo de se vestir são direitos personalíssimos, dizem respeito ao ser humano em sua essência.

Em pleno século XXI, os comentários e referências que desqualificam as mulheres por suas características pessoais e personalíssimas reforçam o modelo de pensamento arcaico dominante em nossa sociedade: a autoridade, o poder e a política não pertencem à mulher. Quando uma mulher se destaca como sujeito, ousa ser independente e se diferencia do masculino, é relembrada de sua condição feminina, sexualizada, inferiorizada, ridicularizada e humilhada.

As mulheres retratadas no artigo de opinião referido são mulheres com carreiras públicas e, assim como homens, devem ser respeitadas pelos cargos que ocupam. Que sejam debatidas suas trajetórias, posições e ideais, não a sua condição feminina.

As indagações são: o que todas essas qualificações de cunho sexista trazidas pelo artigo de opinião têm realmente a dizer sobre as mulheres do país? Os adjetivos misóginos, em comentários agressivos e degradantes, são necessários para a análise das posições dessas mulheres, que estão no centro das discussões do poder no Brasil de hoje? O debate precisa ridicularizar a mulher? Homens seriam tratados da mesma forma?

Trata-se de estratégia para calar as mulheres que exercem funções públicas e de autoridade, alertando-as de que devem permanecer “quietinhas” e cordatas se não quiserem ser objeto das fogueiras simbólicas e do escárnio público, desestimulando todas as demais a ocupar posições de poder e manifestar suas opiniões, permanecendo minoritárias, coadjuvantes e subordinadas.

Em tempos em que tanto se discute sobre igualdade de gênero e ao mesmo tempo explodem estatísticas de feminicídio e violência doméstica, esse artigo revela o grande preconceito que ainda está presente em nossa sociedade, e que alimenta a cultura de tolerância social para com a violência contra a mulher.

Última pergunta: Será que não estamos todos e todas envergonhados com esse preconceito contra as mulheres?

Texto elaborado pelas participantes do Grupo Interinstitucional de Estudos de Gênero do Judiciário e do Ministério Público do Estado no Paraná